Quantas Parcelas Posso Atrasar Sem Risco de Busca e Apreensão?

A dúvida sobre o “limite de tolerância” para o atraso de parcelas do financiamento é a pergunta que mais gera ansiedade e, infelizmente, leva muitos devedores a uma falsa sensação de segurança. A crença de que é preciso atrasar 3 ou mais parcelas para o banco agir é um mito jurídico extremamente perigoso.

A realidade é que, nos contratos de alienação fiduciária, o risco de Busca e Apreensão começa muito antes do que se imagina, e a sua atuação deve ser imediata ao primeiro sinal de dificuldade.

Neste artigo, vamos desvendar:

  1. Qual é o risco zero de atraso, conforme a lei.
  2. Por que o banco não precisa esperar 3 parcelas.
  3. O que acontece com o novo procedimento de Busca e Apreensão Extrajudicial (Lei nº 14.711/2023).
  4. Como agir de forma imediata para proteger seu veículo.

 


O Risco Jurídico Começa na Primeira Parcela

A lei que rege os financiamentos de veículos com alienação fiduciária (Decreto-Lei nº 911/69) é clara e não estabelece um “prazo de tolerância” para o devedor.

1. Zero Parcela Atrasada = Risco Zero

A única resposta juridicamente segura para a pergunta “Quantas parcelas posso atrasar sem risco?” é: nenhuma.

  • Configuração da Mora: A mora (o estado de atraso ou inadimplência) é constituída no dia seguinte ao vencimento da parcela, automaticamente, conforme o contrato.
  • A Base Legal: O banco tem o direito legal de iniciar o processo de Busca e Apreensão a partir do atraso de apenas 1 (uma) parcela, desde que comprove a notificação formal do devedor (a constituição em mora).

Por Que o Banco Não Espera Mais?

A estratégia dos bancos de, historicamente, esperar 2 ou 3 parcelas era puramente administrativa, visando otimizar os custos e a logística do processo judicial. Não era uma exigência legal.

Com as novas ferramentas de localização de bens e o procedimento de Busca e Apreensão Extrajudicial (regulamentado pelo CNJ – Provimento nº 196/2025), que aceleram o processo, o custo e o tempo de espera do banco diminuíram. Consequentemente, a tendência é que o acionamento judicial ou extrajudicial ocorra cada vez mais cedo.

Importante: Não conte com a “tolerância” do banco. A partir do momento em que a primeira parcela atrasa e você é validamente notificado, o risco de ter seu veículo apreendido já existe e só cresce com o tempo.

 


O Passo a Passo da Ação do Banco

O processo de acionamento da Busca e Apreensão tem etapas definidas, e sua defesa precisa ser estratégica em cada uma delas.

EtapaAção do BancoSeu Risco
1 Parcela AtrasadaEnvio de Notificação de Constituição em Mora (Cartório/AR).Risco legal de acionamento imediato.
2-3 Parcelas AtrasadasDecisão de acionar a justiça ou o Cartório (Busca Extrajudicial).Alta probabilidade de processo protocolado e mandado iminente.
Após o AcionamentoJuiz/Cartório defere a apreensão e insere restrição no RENAJUD.O veículo pode ser apreendido a qualquer momento e em qualquer lugar pelo Oficial de Justiça.

O principal fator de proteção é a Notificação de Constituição em Mora. Se o banco não conseguir comprovar que te notificou validamente, o processo pode ser anulado.

 


Ação Imediata: Como Proteger Seu Carro

Se você está com a primeira, segunda ou terceira parcela atrasada, a única forma de minimizar o risco é agindo imediatamente com estratégia jurídica.

1. Defesa Contra Abusos (Ação Revisional)

Muitas vezes, o atraso é resultado de juros e tarifas abusivas no contrato.

  • Análise Contratual: Um advogado especializado pode analisar seu contrato e ingressar com uma Ação Revisional. Essa ação não apenas busca reduzir o valor da dívida (tornando-a pagável), mas também pode ser usada como tese de defesa para suspender a Busca e Apreensão, alegando que a dívida cobrada pelo banco está incorreta.

2. Monitoramento e Nulidade da Notificação

Verifique a validade da notificação que você recebeu.

  • A carta foi entregue no seu endereço de contrato?
  • Foi entregue por Cartório de Títulos e Documentos ou AR (Aviso de Recebimento)?

Qualquer falha formal na notificação é um argumento poderoso para pedir a extinção do processo, ganhando tempo crucial para renegociar ou entrar com a ação revisional.

3. Evitar Ações Prejudiciais

  • Não Esconda o Carro: Esconder o veículo pode levar à conversão da Busca e Apreensão em Execução de Título Extrajudicial, permitindo que o banco peça a penhora de outros bens, além do carro.
  • Purgação da Mora: Se a apreensão ocorrer, lembre-se: você tem 5 dias úteis, contados da execução da liminar (conforme tese consolidada do STJ), para pagar a integralidade da dívida (o valor total do contrato) e reaver o bem.

 


Conclusão e Chamada para Ação

⚖️ O risco de busca e apreensão começa já na primeira parcela em atraso, especialmente com o avanço do procedimento extrajudicial, que torna a retomada do bem mais ágil.

A orientação jurídica especializada é essencial para analisar notificações, identificar falhas contratuais e adotar medidas de defesa adequadas.

O João Inácio Advogados conta com advogados experientes em Direito Bancário, disponíveis para análise técnica e esclarecimentos pelo WhatsApp.

Assista a este vídeo para entender as táticas de defesa e o que esperar após o acionamento:

FAQ Final – Perguntas Chave sobre Risco de Atraso

1. Quantas parcelas posso atrasar sem risco de busca e apreensão?

Risco zero, apenas se não houver atraso. Legalmente, o risco começa com uma única parcela em atraso, após a notificação do banco.

2. O que o banco costuma esperar para acionar a Busca e Apreensão?

Na prática, muitos bancos esperam de 2 a 3 parcelas (60 a 90 dias), mas isso é uma estratégia de gestão interna, e não uma exigência legal.

3. O que a Busca e Apreensão Extrajudicial muda?

Torna o processo mais rápido, permitindo que a retomada do bem seja iniciada via Cartório, sem a necessidade de uma liminar judicial demorada no início.

4. O que devo pagar para reaver o carro após a apreensão?

Você deve pagar a integralidade da dívida (parcelas vencidas + vincendas), e não apenas o que está em atraso, em até 5 dias úteis após a apreensão.

5. A teoria do adimplemento substancial ainda me protege?

O STJ tem decidido reiteradamente que a Teoria do Adimplemento Substancial (pagar mais de 70% ou 80% do contrato) não é aplicável para impedir a Busca e Apreensão, pois o Decreto-Lei nº 911/69 exige a quitação total para consolidar a propriedade.

6. Se eu pagar as parcelas atrasadas, o processo para?

Não. Após o ajuizamento, apenas o pagamento da integralidade da dívida (vencidas e vincendas) no prazo de 5 dias após a apreensão pode reverter o processo e devolver o veículo.

João Inácio

João Gabriel Inácio é advogado especialista em Direito do Consumidor e Direito Bancário, fundador do escritório João Inácio Advogados Associados, escritório referência contra Bancos e Financeiras.

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JOÃO GABRIEL INÁCIO

ADVOGADO ESPECIALISTA EM DIREITO DO CONSUMIDOR

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